sexta-feira, 28 de maio de 2010

Estou triste, posso chorar? Quando o parto não é como desejávamos





Nos primeiros dias que seguiram ao nascimento de minha filha me senti estranha, senti que o parto e as primeiras horas depois do parto me deixaram com um gosto amargo de decepção na boca. Eu me senti imensamente feliz com a filha no colo, mas o que tinha se passado me deixava triste. Eu tive um babyblue em que eu chorava, me lembrando de que o parto não tinha sido como eu tinha imaginado.



Já faz dez anos que tive meu primeiro parto, naquela época não conhecia internet, nem sabia muita coisa sobre parto, desconhecia totalmente a realidade da obstetrícia no Brasil. A minha frustração foi originada de um desejo muito meu, próprio, um desejo bastante visceral e da imagem do parto como desfecho da gestação.


Eu pensava no parto como um momento único e especial, onde eu iria fazê-la nascer, eu e meu marido, unidos, no trabalho de ajudar nosso bebe a nascer. Eu imaginava que ao nascer minha filha iria para o meu colo e aquele momento seria eternamente nosso; eu, meu marido e minha filha. Mas os acontecimentos foram totalmente diferentes e eu me senti abalada.



O parto apesar de ser normal foi diferente de tudo que eu pensava, desde o momento que entrei na maternidade. Fui medicalizada e tratada como um doente que eu não era! Não fui desprezada, maltratada nem humilhada, mas não tive autonomia nem liberdade, me senti infantilizada e sofri intervenções médicas que eu desconhecia o nome e a sua razão de ser, aceitei a analgesia quando já nem precisava dela, e por fim meu marido foi proibido de me acompanhar no centro cirúrgico na hora em que ela ia nascer. O pior e mais marcante de tudo foi que só fui tocar em minha filha pela primeira vez no dia seguinte. Depois de tudo me sentia realizada em ter meu bebe no colo e tentava me adaptar a nova vida, mas volta e meia recordava os fatos e me sentia infeliz.

Logo que essa tristeza batia nas primeiras semanas, ouvia de outras pessoas para deixar aquilo para lá. Diziam-me com todo carinho que o importante é que nós agora estávamos bem, eu e ela. Várias vezes tive vontade de chorar, mas inibia minhas lágrimas e ouvia estes consolos que em nada me confortavam. Deixavam-me apenas com sentimentos de culpa. Pronto! Estava feito o dano, triste pelo que tinha vivido, e culpada por sentir-me triste! Tristeza, culpa e solidão - diante da incompreensão me vi sozinha cercada de pessoas. Puepério de qualquer forma é um momento delicado e eu não conseguia muito bem avaliar aquele monte de emoções que se misturavam.

Passou o tempo e aprendi a seguir os conselhos que me deram, coloquei tudo de baixo do tapete. Sentia-me fraca e estúpida quando pensava no que tinha acontecido, e me senti assim também quando cuidava de minha filha, por isso varria mais uma vez esses pensamentos para aquele tapete sujinho. Foi certamente doloroso aceitar que o parto não foi como esperava, eu precisava sentir este pesar, e poder mencionar a mágoa.

Muitas mulheres vivem esses sentimentos de decepção quanto ao seu parto. Mas o que mais nos faz mal neste momento é negarmos a nós mesmas o significado dessa emoção, negarmos a legitimidade de nos sentirmos tristes. Quando a realidade avassaladora invade nosso imaginário e nossos desejos viscerais é preciso coragem para enxergar a origem da dor, e ir mais longe do que o óbvio. Buscar nossas forças para viver melhor com aquilo. Esse sentimento é verdadeiro, merece nossa atenção. É necessário dar nos tempo e termos forças para nos encontrarmos com nossas partes mais obscuras. Lidar com a perda é menos difícil do que lidar como o inominável.

Segui a vida sem fazer nada disso. Acontece que esse tapete se levanta e começa a incomodar. Tem sentimentos que geram emoções em nosso corpo, esse corpo guarda essa marca. Foi preciso olhar bem para os sentimentos de ambigüidade, deixar que a tristeza aflorasse. Ver e viver aquela dor para mim era bem melhor do que deixar ela parada. Fui ao mais fundo da minha parte obscura, fui dar nome àquilo que me consumia. Fui onde minha fraqueza era minha força. Busquei conversar com quem me entenderia, dei de ombros para aqueles que simplesmente não são capazes de compreender.

Passou muito tempo antes que eu notasse o quanto aquilo tudo tinha dificultado a minha transformação em mãe. Como nos pequenos detalhes eu me sentia insegura e critica. Talvez isso já fizesse parte de mim, mas no parto eu perdi a chance de superar e no pós-parto eu neguei a possibilidade de cura.

Eu não tive o que chamam de depressão pós-parto, mas que diabos foi isso tudo então? Não, eu não fiquei derrubada na cama, não desfiz meu casamento embora o tenha minado com minha agressividade, não detestei meu bebe apesar das noites insones e de me sentir confusa, eu pude amamentar apesar de toda dificuldade. Eu vivi a vida e me deslumbrei com o desenvolvimento de minha filha. Tive sorte, alguns diriam, mas e essa sensação vazia que tanto me interpelava?


Muita coisa poderia ter sido diferente se eu tivesse chorado desde o começo. Esse silêncio que eu fazia para minha própria dor deveria ser um grito. O grito que eu não dei quando pari minha primeira filha. Tive outros filhos e outros partos, mas está história ainda é minha, ainda é viva.

8 comentários:

Tata disse...

E na dor crescemos, buscamos palavras para explicar e tentar entender tudo isso. Aí engravidamos de novo, e parimos, cada vez melhor. E nos tornamos doulas, e um dia a ficha realmente cai: a sua um lindo virou texto. Parabéns, Flá. Bjs, saudades. Daphne, doula de BH

Maternar disse...

Flávia,

Lindo, profundo e verdadeiro!

Eu ainda não me sinto preparada para escrever sobre o meu momento e nem para publicar o relato do nascimento do meu filho... essa semana completamos 3 anos dessa intensa história.

Acho que eu "resolvi resolver" isso de forma tão "ocupada" - estudando e no ativismo -, que ainda não sobrou "um buraco" para essas reflexões.

Mas, lendo relatos como os seus, sempre elaboro um pouquinho mais...

Obrigada por compartilhar!

Bjs grandes!

Helô, do Gabo, e sua colega de quarto em Sanca! :D

Carol disse...

Flávia, compreendo essa dor...
eu tbm me senti assim após o nascimento do meu pequeno...

Ainda bem que hoje, com acesso a internet e outras coisas, a chace de exorcisar esses males aumentaram...

Ler um desabafo como o seu, sem dúvida fará muitas mulheres perceberem o " detalhe" que ficamos sem entender...

a mistura de sentimentos...

Beijos grandes...

Cecilia disse...

Minha flor eu sei o que você sentiu, pois por 2 vezes passei por algo parecido. Pois meu primeiro filho, o Arthur, foi as mil maravilhas, o meu marido estava comigo o tempo todo no pré-parto e o parto foi normal e tranquilo.

Mas em 2006 tive uma gravidez ectopica no qual quase morri e nem foi o que eu passei antes me entristeceu, mas que eu passei depois com a perda de "Victor", de não poder ficar com meu Arthur durante 2 semanas e nem pode me confortar no hospital.
E depois que meus familiares fizeram comigo e meu marido.Pois antes de eu parar no hospital eu fiquei com um hemorragia de 2 meses, que parecia uma menstruação.Tive uma fraqueza tão grande que nem levantava da cama e consequentimente minha casa fikou bagunçada.
Por isso meus parentes interviram fazendo uma catança sem objetivo pra mim, ameaaçaram meu marido(que até pensei q ele ia parar no hospital pois a pressão dele parou 20 por 6) e voltar pra casa e não ver minhas coisas,tiraram fotos nos ameaçando levar pra juizado de menores se a nossa casa voltasse a ficar daquele jeito.
Me senti a pior esposa , a pior mãe, por ser humilhada...Que até hj afeta minha alto estima,pois não me sinto suficiente.

E o medo de não ter mais filhos..

E em 2009 ganhei o Lucas eno hospital diferente onde ganhei o primeiro.
Não deu pra eu ter meu marido no meu pré-parto( me senti tão sozinha...), mas consegui que ele visse o parto, mas ele naum me acompanhou depois e me senti triste...Alem q por causa de briguinhas de parentes o meu filho, Arthur, não veio ver o irmãozinho...me senti frustada....triste e me doi ateh hj....

De 2006 a ate 2010 jah virei um neorotica por limpeza, me senti no big brother (pois moro do lado da minha sogra),qndo minha mãe vem me visitar eu fico maluca pra deixar tudo perfeito, fiquei briguenta,chata, piorei meu casamento que quase virou em separação,ateh hj não confio em meus parentes e tenho um ciumes total de meus filhos com parentes (pois quase eles me tiraram de mim)....

E como você disse.. eu coloquei debaixo do tapete... mas qndo levanta com o vento incomoda ...
E pra mim é uma cicratiz que esta lá...ate sarou...mas esta lá me marcando pra nunca esquecer...

Bjo linda e força!!!

Aninha disse...

Uau!
Parabéns pelo depoimentos, e parabéns para todas que também puderam remexer um pouco nas próprias feridas comentando aqui. É assim, juntas, que conseguimos transcender o que um dia nos machucou e as lembranças que muitas vezes, amargas, deixam um gostinho de leite azedo para sempre na boca de muitas mulheres.

Pati Merlin disse...

Flá,lindo texto! Vou postar na lista Gesta.
Bom, eu vivi isso também: a frustração de um parto, aliás de um não-parto no meu caso. E eu me permiti viver tudo, imediatamente. Eu me revoltei, eu chorei, eu xinguei tudo no mesmo dia e nos dias que se seguiram e enquanto durou meu luto: 1 ano e pouco. Meu casamento ficou estranho, minha cabeça parecia doida, mas eu PRECISAVA disso, não dava pra adiar. Eu me lembro de querer respostas na lista PartoNosso e até a AC dizer: vai maternar, vai cuidar do seu patinho, depois a gente fala sobre isso. E eu não quis, eu quis falar ali, naquela hora. Não foi menos sofrido por isso, pode acreditar. Mas acho que ajudou a curar mais rápido, sabe? E ajudou a ter mais clareza sobre o próximo parto, bem mais rápido. Sem falar nas "implicações" boas para a minha atuação nesse mundo de partos.
E o que me ajudava MUITO a enfrentar tudo isso e a não olhar pro Pedro como se buscasse uma resposta nele (eu diria até que culpa, já que a alegação é que ELE tinha virado a cabeça), foi a amamentação. A amamentação foi uma doce vingança!
Enfim, tô super de acordo com essa necessidade de falarmos sobre isso com as mulheres. Esse é um passo a diante no trabalho que fazemos, mas não é menos importante!
Agora você precisa escrever sobre a superação dessa dor, sobre seus partos seguintes...
:O)
bjs
Pata

ana isabel disse...

OI Flavia

Gostei muito de seu texto e me identifiquei em alguns aspectos. Meu parto não foi como eu queria (aliás, nem foi parto, foi cesariana), mas o pior foi depois. Eu, toda confusa, tentando aprender a ser mãe e as pessoas com tantos conselhos querendo que eu seguisse exatemente seus passos e sem deixar espaço para o meu jeito, a minha intuição. Tudo isso mina a minha auto-confiança, que já estava abalada pelo parto

Um abraço

Ana Isabel

Flavia Penido disse...

Queridas, mulheres, mães, só conto essas coisas assim em publico porque sei que em muitos lares exitem outras mulheres na mesma situaçào que eu vivi, sem imaginar que não está só.
Parto e puepério são partes importantes de nossas vidas,precisamos resgatar o respeito e dar novamente relevancia a eles!