domingo, 22 de janeiro de 2012

Fator econômico e a opção pela cesárea

Nós já sabiamos, a pesquisa apenas confirma.

Fator econômico se sobrepõe ao clínico na opção pelos partos cesáreos

da Universidade Federal de Minas Gerais



Fator econômico se sobrepõe ao clínico na opção pelos partos cesáreos, revela dissertação do Cedeplar terça-feira, 22 de novembro de 2011, às 9h10



As variáveis clínicas que justificam o parto cesáreo – riscos para o bebê ou para a mãe – não têm prevalecido na escolha desse procedimento, que cada vez mais substitui o parto normal nos hospitais brasileiros. A conclusão é da economista Tabi Thuler Santos, que defendeu recentemente a dissertação *Evidências de indução de demanda por parto cesáreo no Brasil*. Segundo o estudo, fatores não clínicos, como a renda da parturiente, parecem definir a escolha.

Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera aceitável o percentual de 15% de cesarianas no total de partos, o Brasil registra atualmente em torno de 85% no setor privado e cerca de 35% nos hospitais públicos. Na base de dados analisada pela pesquisadora – um plano de saúde empresarial do estado de São Paulo, no período de 2004 a 2009 –, as cesarianas ultrapassaram os 90%.

Como na maioria das vezes o médico obstetra recebe maior remuneração na realização de parto cesáreo, Tabi Thuler procurou investigar se a vantagem financeira de um tipo de procedimento para o outro tem importância na decisão do médico por realizar cesariana. Segundo a autora, o trabalho é inédito no país por utilizar arcabouço econométrico. “Embora haja muitos estudos médicos sobre o tema, não há pesquisas com esse viés econômico”, afirma, ao lembrar que o principal limitador para esse tipo de pesquisa é a falta de dados. “Minha dissertação só foi possível porque um plano de saúde abriu, pela primeira vez, seu banco de dados para o grupo de pesquisa da minha orientadora, professora Mônica Viegas Andrade”, diz.

O trabalho de Tabi Thuler avalia, por meio de modelo empírico de regressão logística, o impacto do diferencial de remuneração do médico sobre a probabilidade de o parto ser cesáreo. “Como não existem informações sobre os valores recebidos pelos médicos analisados, a estratégia utilizada foi a construção de uma proxy, ou aproximação”, comenta a pesquisadora. Um dos resultados da pesquisa é que a demanda induzida cresce com o aumento do diferencial de remuneração entre os dois tipos de parto.




*Traço cultural *
“O médico detém mais informações sobre a situação do que o paciente, por isso pode induzir escolhas”, lembra a economista. Tal poder de indução se amplia com a prática – específica do Brasil, segundo ela – de a mulher preferir o parto com o obstetra que a acompanhou no pré-natal. Outro traço cultural que influencia na escolha, de acordo com Tabi Thuler, é a crença de que o parto cesáreo tem resultado melhor para a saúde. “A ideia é que, por ser um procedimento cirúrgico, o médico teria maior controle sobre a situação, o que traria melhor resultado para a mãe e para o bebê, mas isso não é verdade”, diz ela. Artigos e estudos demonstram que, ao contrário, cesarianas aumentam o uso de anti-inflamatórios pós-parto, o tempo do bebê na incubadora e até as taxas de mortalidade. 

Com relação às variáveis que se mostraram importantes na escolha, o estudo apontou a renda da parturiente; o diferencial de remuneração, ou seja, quanto maior a remuneração da cesariana perante o parto normal, maior a probabilidade de o parto ser cesáreo; e o fato de o hospital estar em uma capital, o que pode estar relacionado à complexidade da instituição ou à urbanização, mas o estudo não teve elementos para esclarecer o fato.

 *Mais estudos*
Aumentar o valor pago pelo parto normal ou remunerar por hora de trabalho não parece ser a solução, pois poderia gerar problema contrário, nos casos em que a mulher de fato precise da cesariana, e o obstetra opte pelo procedimento mais caro. Além disso, nem sempre há uma relação direta entre remuneração e escolha do método a ser adotado. “Há outros motivos, como o custo de oportunidade, isto é, enquanto realiza o parto, o médico abre mão de fazer outras coisas, como uma consulta ou até mesmo descansar. E o parto normal tende a ser mais longo”, exemplifica a pesquisadora.

Outro incentivo às cesarianas é o fato de poderem ser agendadas, o que exclui imprevistos como o atendimento em finais de semana e de madrugada. “Tentamos verificar se tendem a aumentar em períodos como final e meio do ano, mas não conseguimos comprovar tal relação”, diz a economista.

Ruim para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para os planos privados por elevar os custos hospitalares, bem como para pacientes, por aumentar desnecessariamente os riscos, o número exagerado de partos cesáreos ainda precisa ser objeto de outros estudos, afirma Tabi Thuler. “Este estudo propiciará a realização de novas pesquisas”, diz a economista.
(Boletim UFMG, edição 1758)

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